Atelier da Palavra

Assim, como aqui lês

Novembro 28, 2009 · Deixe um Comentário

Assim, rodopiando, assim, como me vês, eu giro em torno de quem tu és, assim, como me vês. Então, a lança de quem quer refrear os impulsos de ti, se digladiará brevemente comigo, porque eu sou, além de quem sou, sou aquele que sobreviverá a nós os dois. E tu, fica quieta, agacha-te, para que ele não te veja ou ouça. Tapa os sentidos, para que não emanes vida e fica-te. Só assim, ele, aquele que está em ti, não te sugará. Só assim te poderás salvar. Depois sobe ao telhado e liberta-te, conversa um pouco com ele, afinal não são tão diferentes assim, afinal ele e tu são como eu, assim, como me lês aqui, somos seres em busca de vida. Somos seres lutando pela sobrevivência, como os outros animais, somos simplesmente filhos do mesmo pai. Deus.

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Horizontes agudos

Novembro 27, 2009 · Deixe um Comentário

E o mundo é um monte de terra, água apenas nos rebordos, podes nadar apenas se souberes o que fazes, caso contrário, se julgas que és sábio, pois bem, poderás nadar, sim, mas quem sabe para onde? Para onde afinal o mar leva os pseudo-sábios? Será que para a fronteira do horizonte, onde a confusão reina, onde ninguém é carne ou peixe, aliás, já alguém aqui tocou o horizonte, já alguém provou o horizonte, assim, como os meninos fazem aos bolos acabados de sair do forno. Já alguém aqui pôs o dedo no horizonte, alguém afundou o dedo nesse mundo tão poderoso, tão apetitoso que é o horizonte de uma mulher, naquela negrura ao pôr-do-sol, que vai crescendo através da nossa proximidade e que se lambe, e se beija, onde nos lambuzamos, onde  somos como animais gemendo. Homem, o reverso da medalha a Fêmea, a fêmea límpida como a candura da manha, que se lambe como a um gelado, se vai lambendo, ora de um lado, ora do outro, até que se deleita numa dentada gulosa, se fura, se saboreia, é assim a fêmea, aquele pedaço de carne e alma, saborosa, quanto mais saborosa melhor, assim como as empadas de carne (que não como), como as imperiais que se querem frescas, assim são as fêmeas querem-se roliças e frescas, como o peixe (e as empadas de carne). Esguias, como as enguias. Assim é o horizonte que aqui se fala, aquela linha deitada ao longe, que apetitosa nos impele a entrar mar a dentro numa caravela feita de casca de nós e afinal quem somos, quem é o horizonte qual o seu mistério, o que revela o seu olhar, os seus lábios saberão nos dar prazer, saberão sim, que aquele horizonte não engana ninguém.

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O amor faz-se cavalgando um cavalo alado no Algarve

Novembro 26, 2009 · Deixe um Comentário

À roda da lata da forma da pega de esmalte que é a nossa existência, não sei mais a direcção para onde irei se desconheço o norte magnético, a minha cabeça de pombo-correio desnorteou-se. Perdi-me, então. Agora a água é o meu norte e a existência o meu sul, rumarei ao Algarve e mergulharei no mediterrâneo da minha alma, assobiando o farei. Só depois regressarei vivo ao mundo de quem nada teme, além-mar o mar de mim. Então, as ondas assobiarão a minha melodia e eu serei de novo aquele a quem a água purificou, serei assim um eterno mareante, uma nau de galopar ondas, um errante sem eira nem beira por esse mar mediterrânico, até que te veja, cavalo louco, que de asas abertas me esperas deslumbrante no teu trotear vagabundo como eu. Eu e tu soltaremos as amarras e voaremos a pique, numa altitude alucinada desligaremos os motores e, posicionando-se, alvejaremos o norte magnético. Enquanto caímos, gritamos, vamos furar o alvo, trespassar esse gelo e quebrar a rotina, iremos trespassar-te norte magnético. E, enquanto desamparados caímos, bebemos um refresco. Bêbados, cambalhotas daremos, tontos do álcool, como nas noites de verão aos tombos pelas ruas de silêncio e tristezas. Ao tocarmos o gelo diremos: picado se faz favor, adoramos caipirinhas, mesmo no norte magnético, apesar do frio amamos caipirinhas. Avante, que o norte magnético clama por mais, e penetramo-lo até desmaiar-mos, doces e calmos fumando um charuto de gelo que cheirava a erva ou a caipirinha. O amor faz-se cavalgando um cavalo alado no Algarve.

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Deambulações

Novembro 26, 2009 · Deixe um Comentário

A sombra é dolorosa como uma faca que corta a pele e reduz a tristeza a gritos. Só a dor ascende pela forma e, alva, expressa a discórdia como a um bramido subtil, esvoaçando pela ladeira como um caminhante. Sou assim, essa chama que rasga a árvore e a cospe dela abaixo desfazendo-se em agonia no chão de carvão, apenas a fraqueza do mundo assiste, a coragem, essa, assobia pela ladeira acima. Sou um capitão da alvorada, acordo e logo besunto o rosto no charco de lama, resfriando as pálpebras que à noite estiveram sempre alerta, sou como um animal dourado que resplandece em si mesmo, tal a euforia da desgraça que assola o existir da humanidade. Apenas quem saltar não ficará cá, apenas quem voar de si se salvará, porque a liberdade está lá em cima, lá onde os gaviões admiram a presa e cândidos estacam no ar e observam. Esse gavião é a liberdade que eu e tu temos, a presa somos nós, porque nada existe livre de que se é, nem tu, ao menos eu serei como um horizonte que se fecha. Além da terra, além de existir, a discórdia existe para colmatar as nossas esperanças, desejos infrutíferos de desilusões imensas em quem tu és e eu, imersas em mim, sobreviventes. Eu e tu somos iguais, apenas vidas que caminham, ou, antes, que deambulam pesadamente, assim, como tu me vês.

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Vida é viver

Outubro 29, 2009 · Deixe um Comentário

E assim que o vento sopra, as folhas sacodem a vida. Chegou o Outono, estação onde os comboios apenas param por desconsolo – é a vida que morre.

E tu, que dizes?, quando a mente te engana com conversas bonitas, te seduz para te devorar como alguém que apenas é usado.

Sou teu, se me disseres que a vida que tu tens não será minha: só assim a vida é viver!

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A alma é a escultura

Outubro 28, 2009 · Deixe um Comentário

Tudo é esculpido e nada sobra, tudo se renova em nós. Porque tudo é muito, porque nada sobra, nada fica de fora, nada não existe, tudo é tudo e tudo é preciso quando o escultor esculpe a alma, porque a alma é a escultura!

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Eu e tu

Outubro 26, 2009 · 1 Comentário

A rosa de pétalas de um puro branco ergue-se como uma borboleta esvoaçando no imenso; sou eu que a vejo e serei eu que a irei colher e colocar numa jarra na minha memória. Mais ninguém a verá – a rosa será assim eterna.

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Além do mundo

Outubro 25, 2009 · Deixe um Comentário

E a fronteira entre o meu mundo e aquele outro que em ti vive, é aquela linha que ao longe vês, num horizonte de cinza. Apenas a fronteira será salva, nenhum de nós verá o futuro que existe para aquém de quem somos, porque apenas os outros, aqueles que não queremos se salvarão.

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Os homens da paz

Outubro 22, 2009 · Deixe um Comentário

E a vida cavalgando no nosso corpo, e aos saltos a fronteira entre nós e os outros, cansada repousa, comendo cenouras. E tu que me dizes rapaz, sim, você que me lê, crie coragem, homem. Covardes são todos os outros, os que a vista alcança. Agora só a guerra pode lavrar, mas logo a terra por nós será semeada, depois de tudo o mais imperar.

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Limpidez asseada

Setembro 28, 2009 · Deixe um Comentário

A roupa jogada ali, onde eu me queria, e tu, assim nua, límpida e asseada como um balde de lixívia, bebias-me a água toda;  limpaste-me a força, só fiquei eu e tu por cima deitada, como uma pena esvoaçando (a cada arfada).

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