A sombra é dolorosa como uma faca que corta a pele e reduz a tristeza a gritos. Só a dor ascende pela forma e, alva, expressa a discórdia como a um bramido subtil, esvoaçando pela ladeira como um caminhante. Sou assim, essa chama que rasga a árvore e a cospe dela abaixo desfazendo-se em agonia no chão de carvão, apenas a fraqueza do mundo assiste, a coragem, essa, assobia pela ladeira acima. Sou um capitão da alvorada, acordo e logo besunto o rosto no charco de lama, resfriando as pálpebras que à noite estiveram sempre alerta, sou como um animal dourado que resplandece em si mesmo, tal a euforia da desgraça que assola o existir da humanidade. Apenas quem saltar não ficará cá, apenas quem voar de si se salvará, porque a liberdade está lá em cima, lá onde os gaviões admiram a presa e cândidos estacam no ar e observam. Esse gavião é a liberdade que eu e tu temos, a presa somos nós, porque nada existe livre de que se é, nem tu, ao menos eu serei como um horizonte que se fecha. Além da terra, além de existir, a discórdia existe para colmatar as nossas esperanças, desejos infrutíferos de desilusões imensas em quem tu és e eu, imersas em mim, sobreviventes. Eu e tu somos iguais, apenas vidas que caminham, ou, antes, que deambulam pesadamente, assim, como tu me vês.
Vida é viver
Outubro 29, 2009 · Deixe um Comentário
E assim que o vento sopra, as folhas sacodem a vida. Chegou o Outono, estação onde os comboios apenas param por desconsolo – é a vida que morre.
E tu, que dizes?, quando a mente te engana com conversas bonitas, te seduz para te devorar como alguém que apenas é usado.
Sou teu, se me disseres que a vida que tu tens não será minha: só assim a vida é viver!
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A alma é a escultura
Outubro 28, 2009 · Deixe um Comentário
Tudo é esculpido e nada sobra, tudo se renova em nós. Porque tudo é muito, porque nada sobra, nada fica de fora, nada não existe, tudo é tudo e tudo é preciso quando o escultor esculpe a alma, porque a alma é a escultura!
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Eu e tu
Outubro 26, 2009 · 1 Comentário
A rosa de pétalas de um puro branco ergue-se como uma borboleta esvoaçando no imenso; sou eu que a vejo e serei eu que a irei colher e colocar numa jarra na minha memória. Mais ninguém a verá – a rosa será assim eterna.
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Além do mundo
Outubro 25, 2009 · Deixe um Comentário
E a fronteira entre o meu mundo e aquele outro que em ti vive, é aquela linha que ao longe vês, num horizonte de cinza. Apenas a fronteira será salva, nenhum de nós verá o futuro que existe para aquém de quem somos, porque apenas os outros, aqueles que não queremos se salvarão.
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Os homens da paz
Outubro 22, 2009 · Deixe um Comentário
E a vida cavalgando no nosso corpo, e aos saltos a fronteira entre nós e os outros, cansada repousa, comendo cenouras. E tu que me dizes rapaz, sim, você que me lê, crie coragem, homem. Covardes são todos os outros, os que a vista alcança. Agora só a guerra pode lavrar, mas logo a terra por nós será semeada, depois de tudo o mais imperar.
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Limpidez asseada
Setembro 28, 2009 · Deixe um Comentário
A roupa jogada ali, onde eu me queria, e tu, assim nua, límpida e asseada como um balde de lixívia, bebias-me a água toda; limpaste-me a força, só fiquei eu e tu por cima deitada, como uma pena esvoaçando (a cada arfada).
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Ah, e ela
Setembro 27, 2009 · 1 Comentário
E a montra, vidro aberto para a intimidade da loja, para a obscuridade. Entrei! E o corpo, em movimentos iguais, chegou até ela e eu gemi-lhe: mais uma destas, por favor. E ela, ah como ela me atendeu, e eu, ah eu, como eu me vim de lá embora. Cá fora, olhei mais uma vez a montra, como que a recordar, tactei o vidro, mas este já não me mostrava a obscuridade, antes o reflexo de duas recordações iguais que segurava na mão, e de outras duas recordações que gotejavam dos meus olhos.
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A pedrinha de olhos sedutores
Setembro 26, 2009 · 1 Comentário
A pedra, pintadinha de um colorido que recordava o pôr-do-sol, queria lembrar-se do mar azul e falador, embora bastante monocórdico. Disse não se lembrar do que o mar lhe dissera, mas logo escutou a rebentação das ondas e desta vez disse que sim, que aceitava ir passear com ele, que tinha até muito gosto em o penetrar. O mar não gostou, detestou ouvir esta resposta e calou-se. Então a pedrinha, fêmea sabida, pavoneou-se no ar e lambeu a pele do mar, chupou-o, enfim, cumpriu o seu papel de fêmea (sedutora!).
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E o mundo
Setembro 25, 2009 · Deixe um Comentário
E o mundo, a sombra feita luz do paraíso.
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